Trazia ténis e calças sujas, a camisa rasgada e nem o blusão se aproveitava - faltavam botões e um dos bolsos tinha sido arrancado. A mãe estava incrédula. Já tinha aparecido esfolado de trambolhões, com ténis estragados pela falta de jeito com a bola e até já tinha perdido dois ou três casacos, mas nunca tinha conseguido a proeza de desfazer uma muda de roupa em menos de um dia de escola. Nem o cabelo tinha escapado.
Sorridente por natureza, irritadiço por defeito e muito pouco adepto de sessões de pancadaria, o seu pequeno Pedro raramente se metia em trabalhos. Mas naquele dia tinha certamente alguma coisa para contar.
- Oh Mãe. Aconteceu-me tudo. Primeiro foi uma colega que me quis obrigar a ficar no canto dela. Levantei-me, andei e ela ficou agarrada ao meu bolso. Não sei onde foram parar os botões. A camisa? Foi logo a seguir. Misturei-me com os meninos das t-shirts e trocámos uns empurrões. Se me magoei? Nem por isso. Ganhei? Ninguém ganhou, mas a camisa ficou mal tratada ...
Uma colega apegada nem seria novidade e uma sessão de empurrões é um lamentável fardo na chegada das hormonas. Mas as calças e os ténis estavam mesmo muito sujos. O cabelo estava demasiado desgrenhado e a respiração ofegante fazia disparar todos os alarmes sanguíneos. A história ainda não estava toda contada.
- Foi a Madalena ... a mais bonita do grupo das t-shirts. No meio da confusão, não a vi sair. Corri aos bancos de jardim de que ela gosta. Mas não só não estava, como tropecei. Corri à pastelaria dos croissants, mas também não tinha ido lanchar. Ainda corri de volta ao pátio do liceu. Fartei-me de correr...
Tudo bem. Queda no jardim, tristemente banal. Correrias, também. Mas o que raio tinha a Madalena para o fazer correr tão desenfreadamente? Teria o pequeno Pedro descoberto os recantos menos iluminados dos pátios dos liceus?
- Cada um corre pelo que quer.
Deixou-se desarmar pela prontidão da resposta e discretamente até aprovou a irreverência do cada vez menos pequeno Pedro. Se queria correr, que corresse. Se não se importava de cair e trocar empurrões nos corredores, boa sorte. E se corria pela Madalena, alguma magia a menina teria. Essencial era que fosse aprendendo pelo caminho. Agora a lição era simples - entre correrias, é preciso recuperar a higiene corporal, sarar feridas, recuperar o equipamento e planear a escolha da próxima rota.
- Mãe, pior que tudo isso é arranjar coragem para voltar a correr.
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segunda-feira, 9 de abril de 2012
domingo, 1 de abril de 2012
Lisboa
Não é fácil calcorrear os passeios de Lisboa. A calçada é gira, mas esburacada. O terreno é inclinado. E o festim para os olhos, não compensa a curta linha de Metro. Ainda assim, pasme-se, há quem tenha orgulho em lhe conhecer os segredos.
Em Lisboa, há quem se perca nos recantos mais escuros, quem se vicie nas esplanadas e quem ceda ao ritmo do seu triste Fado. Em Lisboa, também não falta quem vingue, quem lhe aproveite o Sol e lhe promova a beleza.
A direito, a ser embalado ou a escalar a Rua das Pretas, sobreviver em Lisboa não é fácil e a esquizofrenia da sua vida pode tornar-se contagiante. A cidade do Príncipe Real, tem sem-abrigo nos Restauradores. A cidade que nasceu com Rio, Mar e Sintra, tem prédios devolutos no Saldanha. A cidade do Castelo tem o Colombo.
A Lisboa dos Pingo Doce, tem as mercearias dos antónios. A Lisboa da Segunda Circular, tem mesmo uma Ponte Sobre o Tejo. A Lisboa do Jardim da Estrela também tem Docas. Lisboa, cidade que o Alfacinha sempre ouviu ao som de Paredes, acolheu os Delfins. A cidade que se ajoelhou para o Ratzinger, mas fez revoluções sem tiros. Um cravo? Zero mortos? E um regime deposto? Só em Lisboa.
Longe de ser uma autoridade no assunto, o Alfacinha até sabia duas ou três coisas da história da cidade. Sabia que em nome de um dos seus primeiros heróis, apresentava a mais triste das praças. Sabia que de Belém tinham saído loucos à procura de Terra e a história do Largo do Carmo. Sabia que a capital do país falido tinha sido de Camilo e de Pessoa. Sabia que a capital do país do Aníbal, apresentava Ronaldos e Mourinhos. O Alfacinha também não se esquecia que a sua Lisboa era associada a Durão Barroso e que no currículo tinha a censura a um livro de prémio Nobel. Em Lisboa já se tinham cometido as maiores das atrocidades, mas também tinha sido a primeira a não ter pena de morte.
Longe de ser a mais fácil das cidades e sendo capaz de moer o ritmo ao mais convicto dos peões, nunca o Alfacinha tinha pensado em trocar. Londres e Maputo dificilmente poderiam ser mais tentadoras, mas no máximo ponderara uma visita prolongada. Nunca uma substituição. E afinal, o que o prendia? O desafio? A vista? O luxo de estar entre Sintra e uma costa com praias de luxo? Vivia convencido que bastava balanço para sobreviver e que com um bocadinho de persistência ainda iria ver oportunidades na sua Lisboa. Cuidava-lhe a higiene, apregoava-lhe a beleza e nunca lhe poupava elogios. Longe de lhe domar todas as colinas, nunca o Alfacinha tinha pensado em jogar noutras ruas. Lisboa tinha-lhe dado o nome, o feitio e o suficiente para saber que às vezes nem é preciso muito para se poder ter tudo.
Enjoy
Em Lisboa, há quem se perca nos recantos mais escuros, quem se vicie nas esplanadas e quem ceda ao ritmo do seu triste Fado. Em Lisboa, também não falta quem vingue, quem lhe aproveite o Sol e lhe promova a beleza.
A direito, a ser embalado ou a escalar a Rua das Pretas, sobreviver em Lisboa não é fácil e a esquizofrenia da sua vida pode tornar-se contagiante. A cidade do Príncipe Real, tem sem-abrigo nos Restauradores. A cidade que nasceu com Rio, Mar e Sintra, tem prédios devolutos no Saldanha. A cidade do Castelo tem o Colombo.
A Lisboa dos Pingo Doce, tem as mercearias dos antónios. A Lisboa da Segunda Circular, tem mesmo uma Ponte Sobre o Tejo. A Lisboa do Jardim da Estrela também tem Docas. Lisboa, cidade que o Alfacinha sempre ouviu ao som de Paredes, acolheu os Delfins. A cidade que se ajoelhou para o Ratzinger, mas fez revoluções sem tiros. Um cravo? Zero mortos? E um regime deposto? Só em Lisboa.
Longe de ser uma autoridade no assunto, o Alfacinha até sabia duas ou três coisas da história da cidade. Sabia que em nome de um dos seus primeiros heróis, apresentava a mais triste das praças. Sabia que de Belém tinham saído loucos à procura de Terra e a história do Largo do Carmo. Sabia que a capital do país falido tinha sido de Camilo e de Pessoa. Sabia que a capital do país do Aníbal, apresentava Ronaldos e Mourinhos. O Alfacinha também não se esquecia que a sua Lisboa era associada a Durão Barroso e que no currículo tinha a censura a um livro de prémio Nobel. Em Lisboa já se tinham cometido as maiores das atrocidades, mas também tinha sido a primeira a não ter pena de morte.
Longe de ser a mais fácil das cidades e sendo capaz de moer o ritmo ao mais convicto dos peões, nunca o Alfacinha tinha pensado em trocar. Londres e Maputo dificilmente poderiam ser mais tentadoras, mas no máximo ponderara uma visita prolongada. Nunca uma substituição. E afinal, o que o prendia? O desafio? A vista? O luxo de estar entre Sintra e uma costa com praias de luxo? Vivia convencido que bastava balanço para sobreviver e que com um bocadinho de persistência ainda iria ver oportunidades na sua Lisboa. Cuidava-lhe a higiene, apregoava-lhe a beleza e nunca lhe poupava elogios. Longe de lhe domar todas as colinas, nunca o Alfacinha tinha pensado em jogar noutras ruas. Lisboa tinha-lhe dado o nome, o feitio e o suficiente para saber que às vezes nem é preciso muito para se poder ter tudo.
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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
O Alfacinha
Já por aqui passaram bailarinos, músicos, motoristas, marinheiros e até cabeças de wax. Mas e já contei a história do Alfacinha?
Com o mundo desorientado, vivia na capital dos falidos amorfos, o emprego estava longe de ser seguro e, por desígnios a que até era alheio, as dívidas não paravam de aumentar. Diziam-lhe que como ele estava uma geração.
Enquanto os primos gregos se entretinham a destruir o berço da civilização, o Alfacinha perdia horas a pensar nas maravilhosas ironias do panorama. Afinal, o mundinho em que as democracias degeneraram está a começar a pegar fogo na ... Acrópole? Feitios... Tivesse o Alfacinha puxado o temperamento dos primos atenienses e há muito que estavam ainda mais esburacadas as calçadas de Lisboa.
Havia quem lhe chamasse preguiçoso. Corrupção e preguiça eram duas das palavras que os primos de Berlim mais usavam quando falavam da família do Sul. O Alfacinha preferia usar a terceira palavra a que os boches eram obrigados a recorrer - Sol. Ao alfacinha, sempre lhe parecera que o problema estava na arrumação. A Europa fica para a direita de Elvas e bem atrás de Chaves. A Europa sem sol, a Europa das contas de zeros destros, a Europa dos altos, não se vê na terra do Alfacinha. Por cá, temos praia, água por todo o lado, vagas de frio acima dos 10º, mulheres bonitas e o Alfacinha nem percebia como era possível não vadiar.
O que dizia ao berliners? "Não se esqueçam de parar cá nas férias, mas por favor depois não telefonem."
Com o mundo desorientado, vivia na capital dos falidos amorfos, o emprego estava longe de ser seguro e, por desígnios a que até era alheio, as dívidas não paravam de aumentar. Diziam-lhe que como ele estava uma geração.
Enquanto os primos gregos se entretinham a destruir o berço da civilização, o Alfacinha perdia horas a pensar nas maravilhosas ironias do panorama. Afinal, o mundinho em que as democracias degeneraram está a começar a pegar fogo na ... Acrópole? Feitios... Tivesse o Alfacinha puxado o temperamento dos primos atenienses e há muito que estavam ainda mais esburacadas as calçadas de Lisboa.
Havia quem lhe chamasse preguiçoso. Corrupção e preguiça eram duas das palavras que os primos de Berlim mais usavam quando falavam da família do Sul. O Alfacinha preferia usar a terceira palavra a que os boches eram obrigados a recorrer - Sol. Ao alfacinha, sempre lhe parecera que o problema estava na arrumação. A Europa fica para a direita de Elvas e bem atrás de Chaves. A Europa sem sol, a Europa das contas de zeros destros, a Europa dos altos, não se vê na terra do Alfacinha. Por cá, temos praia, água por todo o lado, vagas de frio acima dos 10º, mulheres bonitas e o Alfacinha nem percebia como era possível não vadiar.
O que dizia ao berliners? "Não se esqueçam de parar cá nas férias, mas por favor depois não telefonem."
domingo, 26 de fevereiro de 2012
Há sempre uma música
Pode estar fora de moda, ser de outro tempo, de um estilo de música inesperado e até de uma figura de talento questionável. Sendo certo que meter-lhe uma boa dose de alma ajuda, a dura verdade é que não há receita para uma grande música. E só há um ingrediente comum: todas fazem sentido.
Num dia bom, uma grande música é descoberta à conversa. Num dia perfeito, uma grande música serve de apresentação a músicos incríveis. E normalmente, o momento fica gravado. Ouvi a Roadhouse blues, em disco, sentado em frente à aparelhagem do meu pai. Ouvi a Smells Like Teen Spirit, em cassete, na aparelhagem do meu primo antes de mais uma sinistra explicação de matemática. Descobri a Moanin, em cd, numa das Fnac de Madrid, depois de perguntar ao meu pai: "Por onde começo a ouvir Jazz?". Descobri a Hurt numa praia ali para os lados de Óbidos, num mp3 emprestado, a meio de um cinzento dia de praia.
Ao seu jeito, por um motivo ou outro, todas fizeram sentido e todas abriram a porta a horas infindáveis de música. Gostaria de blues se não tivesse tropeçado na guitarra do Krieger? Sem os meus amigos Cobain, Grohl e Novoselic teria descoberto o Alternative Nation na MTV? Sem o balanço da bateria do Art Blakey teria chegado ao Coltrane? E sem a versão dos Nine Inch Nails descobriria o Johnny Cash?
Foi à conversa que me apresentaram os Mumford & Sons e foi a White Blank Page que me fez ir ouvir o Sigh No More. Pelo Youtube encontrei história de uma página não tão em branco assim, de um coração cansado, cantada entre amigos por um tal de Mumford. Não sei quem compôs ou quem escreveu, não sei se há por ali génio ou um talento digno de registo, mas faz sentido. Porque nem sempre as prometidas páginas estão em branco, porque, porque nem sempre as promessas se concretizam, o melhor é esperar pelo segundo disco e pelo concerto no Alive.
Enjoy
Num dia bom, uma grande música é descoberta à conversa. Num dia perfeito, uma grande música serve de apresentação a músicos incríveis. E normalmente, o momento fica gravado. Ouvi a Roadhouse blues, em disco, sentado em frente à aparelhagem do meu pai. Ouvi a Smells Like Teen Spirit, em cassete, na aparelhagem do meu primo antes de mais uma sinistra explicação de matemática. Descobri a Moanin, em cd, numa das Fnac de Madrid, depois de perguntar ao meu pai: "Por onde começo a ouvir Jazz?". Descobri a Hurt numa praia ali para os lados de Óbidos, num mp3 emprestado, a meio de um cinzento dia de praia.
Ao seu jeito, por um motivo ou outro, todas fizeram sentido e todas abriram a porta a horas infindáveis de música. Gostaria de blues se não tivesse tropeçado na guitarra do Krieger? Sem os meus amigos Cobain, Grohl e Novoselic teria descoberto o Alternative Nation na MTV? Sem o balanço da bateria do Art Blakey teria chegado ao Coltrane? E sem a versão dos Nine Inch Nails descobriria o Johnny Cash?
Foi à conversa que me apresentaram os Mumford & Sons e foi a White Blank Page que me fez ir ouvir o Sigh No More. Pelo Youtube encontrei história de uma página não tão em branco assim, de um coração cansado, cantada entre amigos por um tal de Mumford. Não sei quem compôs ou quem escreveu, não sei se há por ali génio ou um talento digno de registo, mas faz sentido. Porque nem sempre as prometidas páginas estão em branco, porque, porque nem sempre as promessas se concretizam, o melhor é esperar pelo segundo disco e pelo concerto no Alive.
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sábado, 18 de fevereiro de 2012
Merda
Há quem use sacos de plástico, quem evite o problema não tendo cães e até quem esqueça os outros e a deixe no passeio para que outros a enfrentem. Quando é própria, a merda, é mais fácil. Evitas, assumes a responsabilidade e resolves. Simples. Mas todos sabemos - não é fácil lidar com merda.
Sendo alheia não há mais que duas alternativas: pisas ou desvias caminho, 'os outros que resolvam'. Igualmente indiscutível é que nunca o encontro é agradável. Seja a prenda de um fofinho labrador, de uma epidemia de pombos, os restos apodrecidos de restaurante de terceira categoria ou um ser humano de valor negativo, nunca ninguém, na História da Humanidade, gostou de lidar com merda. E poucos foram os que conseguiram ganhar alguma coisa com isso.
O Gandhi, o Mandela, o Churchill ou o Luther King? Talvez. Resolveram muita merda, lidaram com montes dela e no final acabaram a passear num passeio limpinho. Ganharam com isso? Talvez. Dizem que ter a consciência bem tratada vale milhões e eu não gosto de julgar prioridades.
Afinal, como se lida com merda? Pisas, ignoras, desvias ou limpas? E se quiseres mesmo fazer o passeio? Como será que o pessoal do presidente Aníbal faz? E a malta que alimenta o D. Manuel Monteiro de Castro?
Merecem respeito os Homens da Limpeza. Dos que caçam 'artistas', aos que prendem e mesmo aos que pura e simplesmente são obrigados a reagir. Heróis serão sempre os que têm moral para evitar que outros tenham de lidar com merda.
Garantido é que a forma como se lida com merda, alheia ou nem por isso, exige carácter. Há quem fuja, quem aguente, quem ignore e até quem seja capaz de resolver ... Verdade universal: ninguém gosta de o fazer.
...
Disclaimer: Não é fácil escolher uma música para um post sobre merda. Para compensar o odor fica a mais recente descoberta.
Enjoy
Sendo alheia não há mais que duas alternativas: pisas ou desvias caminho, 'os outros que resolvam'. Igualmente indiscutível é que nunca o encontro é agradável. Seja a prenda de um fofinho labrador, de uma epidemia de pombos, os restos apodrecidos de restaurante de terceira categoria ou um ser humano de valor negativo, nunca ninguém, na História da Humanidade, gostou de lidar com merda. E poucos foram os que conseguiram ganhar alguma coisa com isso.
O Gandhi, o Mandela, o Churchill ou o Luther King? Talvez. Resolveram muita merda, lidaram com montes dela e no final acabaram a passear num passeio limpinho. Ganharam com isso? Talvez. Dizem que ter a consciência bem tratada vale milhões e eu não gosto de julgar prioridades.
Afinal, como se lida com merda? Pisas, ignoras, desvias ou limpas? E se quiseres mesmo fazer o passeio? Como será que o pessoal do presidente Aníbal faz? E a malta que alimenta o D. Manuel Monteiro de Castro?
Merecem respeito os Homens da Limpeza. Dos que caçam 'artistas', aos que prendem e mesmo aos que pura e simplesmente são obrigados a reagir. Heróis serão sempre os que têm moral para evitar que outros tenham de lidar com merda.
Garantido é que a forma como se lida com merda, alheia ou nem por isso, exige carácter. Há quem fuja, quem aguente, quem ignore e até quem seja capaz de resolver ... Verdade universal: ninguém gosta de o fazer.
...
Disclaimer: Não é fácil escolher uma música para um post sobre merda. Para compensar o odor fica a mais recente descoberta.
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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012
O senhor do chapéu
Diziam-lhe que era o ingrediente mágico. Que dava encanto; que era garantia de sucesso, na vida e no amor; até que assegurava a felicidade, mas nunca tinha percebido como a arranjava. Sabia de quem vendesse walkmans, barbatanas de tubarão para sopa e até camisolas do Sporting com o símbolo de campeão nacional. Na sua Lisboa, sabia onde comprar tudo. Da droga mais pesada ao modelo mais raro de ténis, mas nunca lhe tinham dito onde podia comprar classe.
Um senhor de chapéu preto, a quem todos gabavam a classe, contara-lhe uns segredos. Tinha de reciclar as t-shirts de banda desenhada e com enormes logotipos, tirar as calças de dentro das botas e deitar fora o frasco de gel. Tinha de limpar o stock de piadas com rimas e deixar de fazer eco a lugares comuns. Uma tragédia para quem adorava citar autores que não percebia, que tinha orgulho nas t-shirts com bonequinhos e nada o deixava mais orgulhoso que um logotipo da Timberland bem à vista do Mundo. Seria mesmo necessário mudar tanto para conseguir a classe de que o senhor do chapéu lhe falava?
Sem nunca lhe explicar onde a conseguira, o senhor do chapéu dizia que sim. Que nem era preciso chamar à atenção, usar cores berrantes, saltar ou falar muito, dizia-lhe o senhor do chapéu que nem eram precisos logotipos ou decorar dezenas de citações, mas nunca lhe disse onde comprara a classe que o Mundo lhe gabava. Estaria o segredo no chapéu?
Enjoy
Um senhor de chapéu preto, a quem todos gabavam a classe, contara-lhe uns segredos. Tinha de reciclar as t-shirts de banda desenhada e com enormes logotipos, tirar as calças de dentro das botas e deitar fora o frasco de gel. Tinha de limpar o stock de piadas com rimas e deixar de fazer eco a lugares comuns. Uma tragédia para quem adorava citar autores que não percebia, que tinha orgulho nas t-shirts com bonequinhos e nada o deixava mais orgulhoso que um logotipo da Timberland bem à vista do Mundo. Seria mesmo necessário mudar tanto para conseguir a classe de que o senhor do chapéu lhe falava?
Sem nunca lhe explicar onde a conseguira, o senhor do chapéu dizia que sim. Que nem era preciso chamar à atenção, usar cores berrantes, saltar ou falar muito, dizia-lhe o senhor do chapéu que nem eram precisos logotipos ou decorar dezenas de citações, mas nunca lhe disse onde comprara a classe que o Mundo lhe gabava. Estaria o segredo no chapéu?
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segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
Cabeça de Wax - Aperto
Em frente ao pontão, entre correntes, e incapaz de remar de volta para a costa, o cabeça de wax acordou num aperto. Para a direita, já passara vinte minutos a remar. Em frente, um pontão a ser brindado com a força da ondulação. Na esquerda, o desconhecido Tejo. Para dificultar, uma irritante corrente a puxar em direcção ao Bugio. Sozinho.
Estava cansado, o Cabeça de Wax. Pernas e braços pesados teimavam em atrapalhar a alma que pedia mais uma. Mais duas ondas. Uma direita perfeita só para sacar a travessa de ameijoas para o dono do Tubo do Dia. E outra, só para voar um bocadinho ... Não conseguiu.
Remar no Tejo, debaixo de olhares jocosos dos locais do pontão e ter de escalar até ao cimento, não foi o mais edificante dos seus momentos, mas serviu para alinhar a perspectiva. Às vezes, na procura dos momentos memoráveis, os que ficam na memória, perde-se demasiado tempo a remar contra a maré. Inevitável?
Enjoy
Estava cansado, o Cabeça de Wax. Pernas e braços pesados teimavam em atrapalhar a alma que pedia mais uma. Mais duas ondas. Uma direita perfeita só para sacar a travessa de ameijoas para o dono do Tubo do Dia. E outra, só para voar um bocadinho ... Não conseguiu.
Remar no Tejo, debaixo de olhares jocosos dos locais do pontão e ter de escalar até ao cimento, não foi o mais edificante dos seus momentos, mas serviu para alinhar a perspectiva. Às vezes, na procura dos momentos memoráveis, os que ficam na memória, perde-se demasiado tempo a remar contra a maré. Inevitável?
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terça-feira, 17 de janeiro de 2012
Mártires da Pátria
Aparece depois de uma esquadra. Primeiro o jardim e o barulho do empedrado, depois o café, a velha Artur Ravara e mais verde. Segue-se um dos devolutos palacetes alfacinhas, um santuário a cães e a estreita descida para o Hospital dos Capuchos. Depois é só ignorar os sinais de trânsito e voltar para trás.
À direita, um jardim infantil. À esquerda, uma mercearia com cheiro a caril, cafés duvidosos e o parque de estacionamento mais fedorento de Lisboa. Perfeito para parar e descobrir os segredos mágicos do quarteirão. Há patos, árvores, uma esplanada surpreendentemente tranquila e a história de mártires da pátria. Gente que deixou marca, mas que não ficou para ver o final da aventura.
Tenho saudades da magia do Mártires da Pátria.
Enjoy
À direita, um jardim infantil. À esquerda, uma mercearia com cheiro a caril, cafés duvidosos e o parque de estacionamento mais fedorento de Lisboa. Perfeito para parar e descobrir os segredos mágicos do quarteirão. Há patos, árvores, uma esplanada surpreendentemente tranquila e a história de mártires da pátria. Gente que deixou marca, mas que não ficou para ver o final da aventura.
Tenho saudades da magia do Mártires da Pátria.
Enjoy
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
Alex
A idade tinha-o tornado céptico. Quando chegava a hora de ouvir música, Alex gostava de ouvir cantar Vida. E o som, instrumental ou cantado, tinha de bater certo com o seu Mundo. Seria possível que um miúdo de 20 anos contasse histórias com sentido? Que um puto com idade para perder horas em maratonas de playstation soubesse algo de útil para a sua vida? Com ou sem razão, certo é que pelo caminho os Doors foram ficando para trás e o Springsteen não parava de ganhar espaço.
Desde novo que descobrira o Beck. Primeiro a Loser, depois o Mellow Gold. Ficou fã. Depois descobriu o Damon Albarn. Primeiro a Song 2 e depois uma variedade de musical absurda. E foi já mais velho que ouviu o Boss e descobriu um puto de vinte e poucos anos. E o dilema resolveu-se.
Ladies and gentleman, Mr Alex Turner.
Desde novo que descobrira o Beck. Primeiro a Loser, depois o Mellow Gold. Ficou fã. Depois descobriu o Damon Albarn. Primeiro a Song 2 e depois uma variedade de musical absurda. E foi já mais velho que ouviu o Boss e descobriu um puto de vinte e poucos anos. E o dilema resolveu-se.
Ladies and gentleman, Mr Alex Turner.
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
All that Jazz
"Arranjas-me um Jazz?" O pedido até tinha sido com jeitinho, quase com vergonha, mas o peso estava lá. Não é pedido que se faça. Rápido ou lento? Com muito ou pouco swing? Sexy ou agressivo? Complexo ou genialmente simples? Saxofone, trompete, bateria ou uma Big Band? Com letra?
Rock seria fácil. Chuck Berry, Led Zeppelin, Guns n' Roses, White Stripes, Black Keys. Com o Hip Hop, ainda mais simples. Run DMC, Public Enemy, Notorious BIG, Eminem, Kanye West. Música pesada? Rage Against The Machine, Pantera, Machine Head... Nada pior que o Jazz. Quando o assunto é apresentar o estranho mundo de Miles a missão é espinhosa. Basta uma sugestão errada e a curiosidade dá lugar ao desinteresse e ninguém devia morrer sem perceber o Jazz.
Desafio naturalmente aceite. Ainda que limitado pelo suporte da coisa - por aqui ainda se ouve música em cd - lá entraram uns monstros sagrados. Os que foram descobertos lá pelos corredores do Camóes. Miles Davis, John Coltrane e Art Blakey, seguramente. Ray Charles, Keith Jarret, Thelonious Monk, também por lá devem ter seguido. O Hendrix vai sempre. E sem Ella a pen não seria devolvida. Só indiscutíveis.
Se adere ou não ao estranho mundo de Miles, não sei. Será que tem tempo para parar e ouvir tanta música? Duvido. Ninguém tem. Despeço-me com um disclaimer: já paguei por discos de todos os citados. E com uma dúvida. Entre sms, whatsapps, youtubes, facebook, toneladas de streamings e downloads para todos os gostos, nos apercebemos de tudo o que ouvimos? Duvido.
Enjoy
Rock seria fácil. Chuck Berry, Led Zeppelin, Guns n' Roses, White Stripes, Black Keys. Com o Hip Hop, ainda mais simples. Run DMC, Public Enemy, Notorious BIG, Eminem, Kanye West. Música pesada? Rage Against The Machine, Pantera, Machine Head... Nada pior que o Jazz. Quando o assunto é apresentar o estranho mundo de Miles a missão é espinhosa. Basta uma sugestão errada e a curiosidade dá lugar ao desinteresse e ninguém devia morrer sem perceber o Jazz.
Desafio naturalmente aceite. Ainda que limitado pelo suporte da coisa - por aqui ainda se ouve música em cd - lá entraram uns monstros sagrados. Os que foram descobertos lá pelos corredores do Camóes. Miles Davis, John Coltrane e Art Blakey, seguramente. Ray Charles, Keith Jarret, Thelonious Monk, também por lá devem ter seguido. O Hendrix vai sempre. E sem Ella a pen não seria devolvida. Só indiscutíveis.
Se adere ou não ao estranho mundo de Miles, não sei. Será que tem tempo para parar e ouvir tanta música? Duvido. Ninguém tem. Despeço-me com um disclaimer: já paguei por discos de todos os citados. E com uma dúvida. Entre sms, whatsapps, youtubes, facebook, toneladas de streamings e downloads para todos os gostos, nos apercebemos de tudo o que ouvimos? Duvido.
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segunda-feira, 26 de dezembro de 2011
À rasca
O que faz um Alfacinha à Rasca se no trabalho o cenário está longe de ser brilhante e se aquela merda que (quase) todos temos a bombear sangue quente já conheceu dias bem mais saudáveis? O que faz um Alfacinha à Rasca num país em que o capitão do barco diz para saltar borda fora? Já viram algum filme de piratas em que os rapazes não saltem quando a água começa a subir?
Começa por calar o telemóvel e acender um cigarro. O resto vem depois. Segue-se uma contagem de soldados. Os mais próximos, os mais afastados e os bons. Entre eles, os alfacinhas com mais sorte encontram um irmão. DEpois, é preciso escolher um destino. Barato, que o Mundo não está para loucuras, com espaço e a que não falte, nos momentos precisos, movimento. Naturalmente, tem de ser perto da praia. Não esquece a escolha da banda sonora. Nada de eufórico, nada de lamechas, nada demasiadamente deprimente. Cash, Hendrix, Rage Against the Machine ou Coltrane são sempre boas escolhas.
Um Alfacinha não é fácil de abater. Muito menos se estiver à rasca. Há quem lhe chame filosofia de Barata. Venha o que vier, seja em Lisboa, na Praia ou noutro continente, um alfacinha sobrevive. Mesmo à rasca.
Enjoy
Começa por calar o telemóvel e acender um cigarro. O resto vem depois. Segue-se uma contagem de soldados. Os mais próximos, os mais afastados e os bons. Entre eles, os alfacinhas com mais sorte encontram um irmão. DEpois, é preciso escolher um destino. Barato, que o Mundo não está para loucuras, com espaço e a que não falte, nos momentos precisos, movimento. Naturalmente, tem de ser perto da praia. Não esquece a escolha da banda sonora. Nada de eufórico, nada de lamechas, nada demasiadamente deprimente. Cash, Hendrix, Rage Against the Machine ou Coltrane são sempre boas escolhas.
Um Alfacinha não é fácil de abater. Muito menos se estiver à rasca. Há quem lhe chame filosofia de Barata. Venha o que vier, seja em Lisboa, na Praia ou noutro continente, um alfacinha sobrevive. Mesmo à rasca.
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quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
Senhor Primeiro Ministro II
Já dorme? Não adormeça Senhor Primeiro Ministro. A chegar à parte animada da história e adormece? Aguente lá mais um bocadinho e vai ver que fica a perceber como aqui chegámos. E logo nós, os que viemos de tão longe. Acorde lá o seu iPad.
Foi bonita a festa. Com cheiro de cravos, correu-se com empoeirados e bafientos e ainda se lançou uma bela discussão: então e agora? Improvisou-se um pouco sensato conselho da revolução e até se fizeram eleições. Isso sim foi uma novidade! Votávamos e volta não volta lá vinha um surpresa.
Foi giro, mas nem por isso andámos para a frente. E o pior estava para vir. Sim, Senhor Primeiro Ministro, aquele rapaz do poster que tem no quarto tornou-nos ainda mais saloios. Camiões de dinheiro vindo dos nossos então amigos europeus e uma nulidade absoluta de ideias inteligentes. Sabe, os anos em que o seu mentor mandou cá na terra foram uma chatice.
Mas olhe que nós por cá sempre nos fomos orientando. Melhor ou pior, tivemos por cá gente de gabarito. Olhe, Senhor Primeiro Ministro, sejam os Picasso ou os Hemingway, os nossos Vieira da Silva e Eça não se batem mal com ninguém. Ironias? Tivemos o Camilo. E para fechar oferecemos o nosso Saramago. Sabe, Senhor Primeiro Ministro, que foi o saloio do seu mentor que o empurrou para os vizinhos?
Seguiram-se uns governos orientados, uns desorientados e outros que até chegaram a ser divertidos. Não me diga que se esqueceu de ver o seu colega Paulo na tomada de posse? Quer que lhe conte a história dos submarinos? Ou que lhe lembre o seu antecessor, o Pedro, à procura das folhas do discurso? Momentos brilhantes. Quer ouvir um? Ora pegue lá nisso e escreva no You Tube: Ornatos Ouvi dizer.
Sabe senhor Primeiro Ministro, chegámos ao fundo do poço. Se já ganhávamos mal, agora será ainda pior. Dizem-nos que temos demasiado direitos e que vamos ter de trabalhar mais. Menos feriados, menos dias de férias e até os subsídios se foram. Digo-lhe que não percebo. Se os vejo, aos seus colegas, a dar dinheiro aos bancos, se os vejo de Porsche e na Quinta da Marinha porque raio nós temos de levar com um aumento no bilhete do autocarro. Até sei que o Senhor Primeiro Ministro mora em Massamá. O que lhe dizem os vizinhos? O senhor do café ainda lhe traz a bica curta?
Ouvi-o dizer aos mais novos para emigrar. Eu percebo-o, descanse. Nunca tinha tido um emprego e de repente dá por si aos comandos de um barco demasiado grande para as suas delicadas mãos. Está assustado, é normal. Não vê saída e, como até tem bom coração, deixou que o desabafo lhe saísse pela boca. Não é grave. Podia ser pior. Imagine que era o sôr Relvas a mandar nisto? Vendiam-se já os jovens aos chineses.
Mas sabe, senhor Primeiro Ministro, tenho para mim que os putos não se vão embora. Mais facilmente os vejo partir uma ou duas montras, que a largar o barco. Mesmo com um capitão desgovernado, gostam disto por cá e, se forem dos meus, até acham que a terra é boa.
Veja lá senhor Primeiro Ministro se ouve o que lhe digo. Não faça as vontades todas à Senhora alemã, acredite que a única coisa decente no Senhor Sarkozy é a sua senhora e não se esqueça que temos, pelo menos, direito a fazer a barulho. Faça como os nossos sempre fizeram. Esgravate, faça barulho, bata com o pé no chão ou parta qualquer coisa. Pode ser que assim o oiçam, pode ser que assim os mais novos, os que não vão emigrar, não tenham de fazer o mesmo.
Não chore Senhor Primeiro Ministro. Faltam meia dúzia de meses para lhe darem a desculpa para sair de cena. Nessa altura, não escolha Paris como refúgio que já não é novidade. Nessa altura, os mais novos estarão por cá, comigo a tomar conta deles, para continuar a suportar a ondulação.
Como acaba? Não sei, mas será uma história com moral. Para já, Senhor Primeiro Ministro, pode ir andando. Lave os dentes, vista o pijama, trate de se aliviar e vá dormir. Não se esqueça: "Meninos que brincam com o fogo, fazem chichi na cama".
Enjoy
Foi bonita a festa. Com cheiro de cravos, correu-se com empoeirados e bafientos e ainda se lançou uma bela discussão: então e agora? Improvisou-se um pouco sensato conselho da revolução e até se fizeram eleições. Isso sim foi uma novidade! Votávamos e volta não volta lá vinha um surpresa.
Foi giro, mas nem por isso andámos para a frente. E o pior estava para vir. Sim, Senhor Primeiro Ministro, aquele rapaz do poster que tem no quarto tornou-nos ainda mais saloios. Camiões de dinheiro vindo dos nossos então amigos europeus e uma nulidade absoluta de ideias inteligentes. Sabe, os anos em que o seu mentor mandou cá na terra foram uma chatice.
Mas olhe que nós por cá sempre nos fomos orientando. Melhor ou pior, tivemos por cá gente de gabarito. Olhe, Senhor Primeiro Ministro, sejam os Picasso ou os Hemingway, os nossos Vieira da Silva e Eça não se batem mal com ninguém. Ironias? Tivemos o Camilo. E para fechar oferecemos o nosso Saramago. Sabe, Senhor Primeiro Ministro, que foi o saloio do seu mentor que o empurrou para os vizinhos?
Seguiram-se uns governos orientados, uns desorientados e outros que até chegaram a ser divertidos. Não me diga que se esqueceu de ver o seu colega Paulo na tomada de posse? Quer que lhe conte a história dos submarinos? Ou que lhe lembre o seu antecessor, o Pedro, à procura das folhas do discurso? Momentos brilhantes. Quer ouvir um? Ora pegue lá nisso e escreva no You Tube: Ornatos Ouvi dizer.
Sabe senhor Primeiro Ministro, chegámos ao fundo do poço. Se já ganhávamos mal, agora será ainda pior. Dizem-nos que temos demasiado direitos e que vamos ter de trabalhar mais. Menos feriados, menos dias de férias e até os subsídios se foram. Digo-lhe que não percebo. Se os vejo, aos seus colegas, a dar dinheiro aos bancos, se os vejo de Porsche e na Quinta da Marinha porque raio nós temos de levar com um aumento no bilhete do autocarro. Até sei que o Senhor Primeiro Ministro mora em Massamá. O que lhe dizem os vizinhos? O senhor do café ainda lhe traz a bica curta?
Ouvi-o dizer aos mais novos para emigrar. Eu percebo-o, descanse. Nunca tinha tido um emprego e de repente dá por si aos comandos de um barco demasiado grande para as suas delicadas mãos. Está assustado, é normal. Não vê saída e, como até tem bom coração, deixou que o desabafo lhe saísse pela boca. Não é grave. Podia ser pior. Imagine que era o sôr Relvas a mandar nisto? Vendiam-se já os jovens aos chineses.
Mas sabe, senhor Primeiro Ministro, tenho para mim que os putos não se vão embora. Mais facilmente os vejo partir uma ou duas montras, que a largar o barco. Mesmo com um capitão desgovernado, gostam disto por cá e, se forem dos meus, até acham que a terra é boa.
Veja lá senhor Primeiro Ministro se ouve o que lhe digo. Não faça as vontades todas à Senhora alemã, acredite que a única coisa decente no Senhor Sarkozy é a sua senhora e não se esqueça que temos, pelo menos, direito a fazer a barulho. Faça como os nossos sempre fizeram. Esgravate, faça barulho, bata com o pé no chão ou parta qualquer coisa. Pode ser que assim o oiçam, pode ser que assim os mais novos, os que não vão emigrar, não tenham de fazer o mesmo.
Não chore Senhor Primeiro Ministro. Faltam meia dúzia de meses para lhe darem a desculpa para sair de cena. Nessa altura, não escolha Paris como refúgio que já não é novidade. Nessa altura, os mais novos estarão por cá, comigo a tomar conta deles, para continuar a suportar a ondulação.
Como acaba? Não sei, mas será uma história com moral. Para já, Senhor Primeiro Ministro, pode ir andando. Lave os dentes, vista o pijama, trate de se aliviar e vá dormir. Não se esqueça: "Meninos que brincam com o fogo, fazem chichi na cama".
Enjoy
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
Senhor Primeiro Ministro I
Psssst. Senhor Primeiro Ministro, sente-se aqui. Quero-lhe contar uma história. Sim, pode trazer o iPad. Já soube que perdeu um na visita a Angola e não tenho dinheiro para pagar outro. Sabe, parece que falimos. São dois minutos. Conversa breve e conto-lhe a história da nossa terra. Um país antigo, com mais de 800 anos de históra...
Onde vai? Tenha calma senhor Primeiro Ministro. Não tem paciência para histórias demoradas? Tenha calma. Vai ver que não custa e até lhe dou uma musiquinha. Carregue lá nisso. Youtube, procurar e é só escrever - zeca afonso mais cinco.
O Norte da península nem era feio, mas as complicações das partilhas obrigaram a uma caminhada para Sul e o sol até era mais simpático. E os nossos lá decidiram ficar. Está a ouvir senhor Primeiro Ministro? Tenha paciência que isto já anima. Experimente agora isto. Escreva - Gilberto uma nota só.
Vindos do Norte, tiveram de lutar pela terra para assentar na costa e depois brilhar no mar. Não lhe minto Senhor Primeiro Ministro, não sei em que praia foi, mas garanto que no dia em que um dos nossos decidiu ir ver se o mar tinha fim as ondas estavam boas. E olhe que a coisa até correu bem durante uns tempos. Massacre aqui, massacre ali, acordo aqui e negociata ali e lá fomos andando. Mas só até ao dia em que começámos a pedir dinheiro para pagar a frota. Lá por baixo? Correram connosco à porrada. E nessa altura já estava tudo estragado.
Talvez pelo excesso de Sol - já o tinham avisado que faz mal? tenha cuidado na próxima ida a Angola ... -, por azar ou por deformação genética, algures nas últimas centenas de anos perdemos as vistas. Andámos demasiado tempo de Botas quando o Mundo já corria com Nikes nos pés e ainda hoje pagamos por isso. Ora agora, escreva: Filho da Mãe. Sobretudo é preciso que acredite nisto: não lhe minto.
Deixe-se estar sentado e não fique triste. Mesmo embrutecidos, os nossos antepassados, nunca perderam a classe e na hora da revolução armaram-se com Cravos. Meia dúzia de tiros, um morto por engano e um regime derrubado. Sabe Senhor Primeiro, acabou por nem ser assim tão difícil. Aqui ao lado a coisa só se resolveu com uma Guerra Civil e felizmente os nossos nem a um canhão deram ordem para disparar.
Conhecia esta? Ah sim, os seus pais contaram-lhe a histórias do comunas? Pois olhe que os vejo como gente de boas intenções. Se me permite, Senhor Primeiro Ministro, vou-lhe ensinar uma palavra: obtuso. Se é verdade que sempre me pareceram boa gente, também não deixa de ser verdade que sempre me pareceram demasiado ... obtusos. Mas olhe, tenho uma coisa em comum com os moços: também perdi a história. Escreva lá "fado toninho". Onde íamos?
to be continued ...
Onde vai? Tenha calma senhor Primeiro Ministro. Não tem paciência para histórias demoradas? Tenha calma. Vai ver que não custa e até lhe dou uma musiquinha. Carregue lá nisso. Youtube, procurar e é só escrever - zeca afonso mais cinco.
O Norte da península nem era feio, mas as complicações das partilhas obrigaram a uma caminhada para Sul e o sol até era mais simpático. E os nossos lá decidiram ficar. Está a ouvir senhor Primeiro Ministro? Tenha paciência que isto já anima. Experimente agora isto. Escreva - Gilberto uma nota só.
Vindos do Norte, tiveram de lutar pela terra para assentar na costa e depois brilhar no mar. Não lhe minto Senhor Primeiro Ministro, não sei em que praia foi, mas garanto que no dia em que um dos nossos decidiu ir ver se o mar tinha fim as ondas estavam boas. E olhe que a coisa até correu bem durante uns tempos. Massacre aqui, massacre ali, acordo aqui e negociata ali e lá fomos andando. Mas só até ao dia em que começámos a pedir dinheiro para pagar a frota. Lá por baixo? Correram connosco à porrada. E nessa altura já estava tudo estragado.
Talvez pelo excesso de Sol - já o tinham avisado que faz mal? tenha cuidado na próxima ida a Angola ... -, por azar ou por deformação genética, algures nas últimas centenas de anos perdemos as vistas. Andámos demasiado tempo de Botas quando o Mundo já corria com Nikes nos pés e ainda hoje pagamos por isso. Ora agora, escreva: Filho da Mãe. Sobretudo é preciso que acredite nisto: não lhe minto.
Deixe-se estar sentado e não fique triste. Mesmo embrutecidos, os nossos antepassados, nunca perderam a classe e na hora da revolução armaram-se com Cravos. Meia dúzia de tiros, um morto por engano e um regime derrubado. Sabe Senhor Primeiro, acabou por nem ser assim tão difícil. Aqui ao lado a coisa só se resolveu com uma Guerra Civil e felizmente os nossos nem a um canhão deram ordem para disparar.
Conhecia esta? Ah sim, os seus pais contaram-lhe a histórias do comunas? Pois olhe que os vejo como gente de boas intenções. Se me permite, Senhor Primeiro Ministro, vou-lhe ensinar uma palavra: obtuso. Se é verdade que sempre me pareceram boa gente, também não deixa de ser verdade que sempre me pareceram demasiado ... obtusos. Mas olhe, tenho uma coisa em comum com os moços: também perdi a história. Escreva lá "fado toninho". Onde íamos?
to be continued ...
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
Fora
Era o Fora. Um daqueles tristes casos em que a alcunha de infância se pega aos ossos. O Manuel que nunca foi Manuel, o Pedro que nunca foi Pedro ou o Carlos que nunca passou de Fora.
Vivia convencido que as pessoas eram mais que os seus corpos. Karma? Alma? Espírito? Ainda não tinha decidido o que lhe chamar. Faltava-lhe a palavra, mas vivia convencido que o Manuel, o Pedro ou o Carlos tinham algo ... fora. E se os ossos já começavam a mostrar os quilómetros, lá fora, as marcavas também se faziam notar. O Fora, vivia convencido que infâncias felizes, adolescências traumáticas, casamentos ou mesmo fins de tarde perfeitos, tinham o seu cunho.
Estranho o Fora. Gostava do seu copo com amigos, da sua manhã de praia e conhecia todos os segredos da sobrevivência feliz em jantaradas. E sempre, sempre, convicto que importante era a parte de fora. A melhor definição que conhecia? Coração. Elogios à beleza, à sagacidade, ao sentido de humor ou a um qualquer talento atlético, tornavam-se triviais quando era o Coração a ser gabado. Quem não gosta de ouvir: "Tens um bom coração."
Homem de bom coração, o Fora. Aluado, como alguns lhe chamavam, distraído ou mesmo preguiçoso. O Fora não era conhecido por ser rápido, mas já tinha ouvido mais que um elogio ao Coração. Tinha as suas marcas e as suas vitórias e aparentemente o resultado não tinha, para os que notavam, sido mau. Algo mais importante que um bom coração? O Fora achava que não.
Enjoy
Vivia convencido que as pessoas eram mais que os seus corpos. Karma? Alma? Espírito? Ainda não tinha decidido o que lhe chamar. Faltava-lhe a palavra, mas vivia convencido que o Manuel, o Pedro ou o Carlos tinham algo ... fora. E se os ossos já começavam a mostrar os quilómetros, lá fora, as marcavas também se faziam notar. O Fora, vivia convencido que infâncias felizes, adolescências traumáticas, casamentos ou mesmo fins de tarde perfeitos, tinham o seu cunho.
Estranho o Fora. Gostava do seu copo com amigos, da sua manhã de praia e conhecia todos os segredos da sobrevivência feliz em jantaradas. E sempre, sempre, convicto que importante era a parte de fora. A melhor definição que conhecia? Coração. Elogios à beleza, à sagacidade, ao sentido de humor ou a um qualquer talento atlético, tornavam-se triviais quando era o Coração a ser gabado. Quem não gosta de ouvir: "Tens um bom coração."
Homem de bom coração, o Fora. Aluado, como alguns lhe chamavam, distraído ou mesmo preguiçoso. O Fora não era conhecido por ser rápido, mas já tinha ouvido mais que um elogio ao Coração. Tinha as suas marcas e as suas vitórias e aparentemente o resultado não tinha, para os que notavam, sido mau. Algo mais importante que um bom coração? O Fora achava que não.
Enjoy
segunda-feira, 21 de novembro de 2011
Abre os olhos
Giro o mundo dos downloads. É divertido chegar a casa com as últimas novidades. Estar selectivamente contactável a qualquer hora pode tornar-se viciante. Tudo mais rápido, tudo mais variado, mas tudo bem mais perecível. Tudo desaparece rápido no mundo dos downloads, é a vida 2.0 onde se perdeu o tempo para saborear os Momentos.
Não há como o negar. Seja um prego numa pastelaria para os lados de Algés, um passeio pela Fundação Champalimaud ou uma visita a um cantinho especial em Lisboa, é bem longe do mundo 2.0 que os momentos se agarram. Nem tem de ser um miradouro na Graça ou o Jardim da Estrela, pode ser uma tosta numa esplanada povoada por irritantes mosquitos ou à beira de uma estrada na Costa da Caparica. A experiência diz-me que é a companhia que faz o momento. No mundo dos downloads os discos não se compram olhos nos olhos. No mundo a 2.0 a banda é sacada, no meu a escolha dos discos diz tudo.
Será roqueira? Fã de Chico? Se gostar de Jazz é de pedir o número de telefone. E se for mulher de ainda dar um pulo à música sinfónica, o melhor é casar logo na bilheteira da FNAC. Pararam para ouvir o mesmo disco? Fnac, Chiado, sete da tarde num mundo pré-falência, haverá momento mais caótico na vida de um alfacinha? Mas e se um dia, decidirem parar? Mesmo que até já tenham o disco no mp3 ou que o saldo recomende tudo menos uma edição em Vinil do Abbey Road?
Há quem deixe escapar os momentos. É preciso andar de olhos bem abertos e é sempre mais fácil ignorar que correr atrás. Sem risco e com a garantia da repetição, é tentador seguir a rota tradicional, mas desfazem-se as hipóteses de começar a noite a lanchar no Kafeehaus. De iPod desligado e numa loja de discos? Abre os olhos..
A selecção até se quer inconsciente, mas a banda sonora é biográfica e se for boa, a história de quem namora as capas também o será.
Não conheço reaccionárias que gostem do Zeca Afonso, nem saloias que soletrem todas as letras do Chico. É garantido que nenhuma urbana gosta de reagge e que não há stressadinha com paciência para os Radiohead. Conhecem alguma preconceituosa que goste de Hip Hop? Ciência não é - poucas coisas o são - mas a escolha da banda sonora é feita de marcas. Tanto serve de aviso como de isco.
Seja por ter companhia, um disco dos Europe lá pelo meio ou por estar demasiada gente à volta, quem nunca desperdiçou um momento? Quem não esqueceu a maioria deles? Os que ficam, tenham sido em esplanadas ou a na Praia Grande a comer Perceves, deixam marca. E essa fica gravada na banda sonora. Um fim de tarde na Fnac será sempre melhor que um passeio pelas melhores sugestões do iTunes e garantidamente que não há aplicação capaz de substituir a honestidade de um olhar. Esses deixam adivinhar a banda sonora. Esses merecem todas as corridas. Esses fazem os grande momentos.
Enjoy
sexta-feira, 18 de novembro de 2011
sábado, 15 de outubro de 2011
15 de Outubro
Vinha exausto. Profissionalmente, sobrevivera à semana mais agitada do ano e, entre o culminar de uma aventura e uma hecatombe, nem sequer tinha tido tempo para pensar. Mesmo respirar tinha sido coisa rara, na semana em que também o coração partiu.
Ouvia gritos, via-os indignados. Alguns divertidos, outros nem tanto. Alguns carregados de cartazes, outros mais entretidos com malabarismos. Cerveja, tambores, bolinhas de circo ou simplesmente penteados. Não faltou entretenimento ao 15 de Outubro.
Crise e sol, ambos demasiado duros para esta época. Gente no limite, gente sem oportunidades, gente sem mais paciência. Entre os milhares na rua - fossem os dez mil da polícia ou os cem mil da organização - só existia um ponto em comum. A paciência tinha esgotado. Não havia como disfarçar. Fosse porque os iMacs estão cada vez mais caros, pelo choque de saber que em 2011 ainda se morre à fome ou pela afronta que quem manda volta a fazer, entre os Indignados não havia quem não estivesse a pensar "Basta".
Encontraram-se velhos amigos, trocaram-se sorrisos, abraços e histórias de guerras: antes do 25 de Abril é que era ... ; e o gajo que mostrou o cú à Manuela Ferreira Leite?; a da Ponte é que foi ... ; e os Secos e Molhados? Entre as memórias, um denominador quase comum: o nosso Presidente da República. Fosse por ter nomeado a Manuela para ministra da Educação, fosse por ter inventado a PGA, por ter dado a ordem da carga na ponte ou por ter equipado os polícias de serviço com mangueiras, o velho Aníbal está em todas. Em quase todas. Antes do 25 de Abril era só "alinhado", não participava.
"Sejam realistas, peçam o impossível". "Vão à bardaMerkel". "Catastroika". "Tira-me o Natal, dou-te greve geral". "Vão privatizar a puta que vos pariu". "Quem deve dinheiro é banqueiro". Eram mesmo "muitos e não tinham medo". Um mimo para o Aníbal: "Cavaco, a brincar aos sérios desde 1985".
Um coração partido pesa mais. O corpo fica menos disponível. A face menos elástica. E as conversas deixam de fluir. Tudo fica mais vagaroso. O Indignado, optou pelo papel de observador. Afinal a luta até era internacional, estavam cidades ocupadas em mais de sessenta países e nas ruas a quantidade de polícia não enganava. A principal batalha até já estava ganha.
No reino dos iPad, iPod, iPhone das sociabilidades cibernéticas e dos indies, ainda há quem saia para a rua com uma atitude punk rock. Sem partidos, sem planos retorcidos, mas com a ingenuidade de achar que ainda se muda o Mundo. Saíram indignados, saíram pelo 15 de Outubro como tinham saído a 12 de Março e o Indignado voltava a acompanhar. O Indignado perguntava: será que serão capazes?
De coração partido mas olhos bem abertos, viu agressões, murros e gritaria. Contra o marchar do Corpo de Intervenção ajudou a segurar os últimos ocupantes da escadaria e teve de se conter para não soltar um ou dois impropérios. Mas da mesma forma que se surpreendeu pela elevada percentagem de polícias civilizados e competentes, não deixou de pensar que os outros, os que se sentem enormes na protecção de uma armadura e com um bastão nas mãos, nem os gritos mereciam.
Voltou melhor para casa. Esgotado, de coração partido, mas com uma confiança redobrada. Se ainda há quem se acredite capaz de mudar o Mundo, quem por isso arrisque a integridade física e quem corra sem segundas intenções. Se ainda sobrevivem os loucos capazes de gritar frases quem gritam "os democratas são os novos fascistas" ou de protestar com frases clássicas do cinema escritas a marcador preto em cartão - "Everybody be cool this is a robbery" - porque raio não conseguiria ele, um simples indignado, resolver problemas bem mais simples. Da mesma forma que os Indignados conquistaram a escadaria e ficaram a sonhar com a invasão aos corredores de São Bento, também ele seria capaz de continuar a caminhar.
Na noite em que a sua geracção descobriu que as barreiras policiais são quebráveis, exausto e de coração partido, pensou no que perderia, mas também nas cenas tristes a que se pouparia, pensou no sorriso e no olhar que nunca mais veria, mas chegava a casa convencido que merecia mais, que a vida, ou mesmo o Mundo, podia ser melhor. Tinha visto como às vezes um sprint em direcção ao Corpo de Intervenção pode ser bem sucedido, mas também que há alturas em que o melhor é ceder e abandonar a Escadaria. A luta, pela vida e por um Mundo mais limpo, continua pela estrada fora. A frase estava num dos cartazes: "Sejam realistas, exijam o impossível".
Enjoy
segunda-feira, 5 de setembro de 2011
Zé, o trompetista cego
Vivia entre a Praça da Alegria e o Parque Mayer. Sonhava nos bancos da Avenida da Liberdade.
Tinha crescido entre guitarristas de fados, putas e uma bebida que lhe parecia vinho verde. Actrizes e coristas também nunca tinham faltado. Sportinguista, ao Domingo raramente perdia a bola e se o jogo fosse à hora de outros palcos, penitenciava-se com todos os resumos. Sem saber para que servia o facebook de que os amigos tanto falavam, lembrava-se da última visita do Cherbakov e tinha saudades do velhinho Hot Clube. Diziam-lhe que era o típico tuga, e que não fosse a peculiar escolha de instrumento, poderia dar um belo fadista.
O Zé tocava trompete. Sim, o Carlos Paredes era o mais parecido que conhecia de Deus. E sim, nunca tinha ouvido um verdadeiro fado sem alma. Mas nada chegava ao som do trompete. De tristeza, dor ou alegria, quando chegava a hora de ouvir uma alma cantar, era o trompete quem oferecia a melhor voz. Miles e Chet, por sinal o nome dos dois gatos com quem partilhava o húmido T2, tinham tornado a escolha evidente e quando descobriu que até dava para pagar a renda não pensou duas vezes. A vida seria vivida ao som de bronze.
Sabia como facturar. Um bom espectáculo no Parque Mayer aguentava uns meses, com sorte aparecia uma banda de putos à procura de um quarteto e até ia sendo chamado para acompanhar em estúdio. Pagava a renda, poupava na roupa e nem era esquisito na hora de escolher o lugar no estádio. A volta para comprar comida, o "dia seguinte" no café e os noticiários mantinham o ritmo de dias que teimavam em terminar com o trompete a chorar.
Ia sabendo das novidades. Sabia que o mundo tinha falido, que o Porto se tinha safo no mercado de verão e que pior que a banca e o Sporting só mesmo uma coisa: Portugal. Trompetista remediado, mas nunca parvo, o Zé até tinha a sua conta, uma espécie de colchão, ao pé do Campo Pequeno, a proteger umas poucas centenas de euros e meia dúzia de certificados de aforro, dos que mais tinham desvalorizado. Que o Zé também nunca tinha sido acusado de ter sorte. Ouvia falar das praias africanas, das ruas de Nova Iorque e da movida de Madrid, mas nunca tinha subido de Bragança e a mais longa das investidas ao Sul acabara em Tavira.
Era cego, o Zé. Não bebia, não fumava e branca só mesmo a casaca. Mas era viciado. Precisava de doses Dizzy Gillespie para ganhar energia, os dois anos de Lee Morgan ajudavam a sossegar e o Miles servia de sobremesa. No Chet Baker encontrava o conforto quando mais precisava. Chuva ou sol, se lhe garantissem a dose de banda sonora do dia, não precisava de mais nada. Consumia no sofá da sala e só o trocava pelo verdadeiro palco dos sonhos.
Imaginava-o longo, com três ou quatro centenas de metros, mas nunca o medira. O número exacto de passos mataria o sonho e não trocava a Liberdade por nada. Era ali que sonhava. O som do vento nas árvores, a vitória do chilrear dos pardais sobre o esvoaçar das asas dos pombos e as conversas de quem lhe caminhava com indiferença. Ali, com o trompete escondido na casaca que lhe diziam "quase branca", sonhava.
Ser cego estava longe de ser fácil, mas nem por isso o Zé se importava. Desabafa e celebrava com o trompete e viajava à conta de quem passava perto da sua Liberdade. Diziam-lhe que "o mais cego é o que não quer ver" e na volta até tinham razão.
"Um tirinho de Chet, se faz favor"
Enjoy
Tinha crescido entre guitarristas de fados, putas e uma bebida que lhe parecia vinho verde. Actrizes e coristas também nunca tinham faltado. Sportinguista, ao Domingo raramente perdia a bola e se o jogo fosse à hora de outros palcos, penitenciava-se com todos os resumos. Sem saber para que servia o facebook de que os amigos tanto falavam, lembrava-se da última visita do Cherbakov e tinha saudades do velhinho Hot Clube. Diziam-lhe que era o típico tuga, e que não fosse a peculiar escolha de instrumento, poderia dar um belo fadista.
O Zé tocava trompete. Sim, o Carlos Paredes era o mais parecido que conhecia de Deus. E sim, nunca tinha ouvido um verdadeiro fado sem alma. Mas nada chegava ao som do trompete. De tristeza, dor ou alegria, quando chegava a hora de ouvir uma alma cantar, era o trompete quem oferecia a melhor voz. Miles e Chet, por sinal o nome dos dois gatos com quem partilhava o húmido T2, tinham tornado a escolha evidente e quando descobriu que até dava para pagar a renda não pensou duas vezes. A vida seria vivida ao som de bronze.
Sabia como facturar. Um bom espectáculo no Parque Mayer aguentava uns meses, com sorte aparecia uma banda de putos à procura de um quarteto e até ia sendo chamado para acompanhar em estúdio. Pagava a renda, poupava na roupa e nem era esquisito na hora de escolher o lugar no estádio. A volta para comprar comida, o "dia seguinte" no café e os noticiários mantinham o ritmo de dias que teimavam em terminar com o trompete a chorar.
Ia sabendo das novidades. Sabia que o mundo tinha falido, que o Porto se tinha safo no mercado de verão e que pior que a banca e o Sporting só mesmo uma coisa: Portugal. Trompetista remediado, mas nunca parvo, o Zé até tinha a sua conta, uma espécie de colchão, ao pé do Campo Pequeno, a proteger umas poucas centenas de euros e meia dúzia de certificados de aforro, dos que mais tinham desvalorizado. Que o Zé também nunca tinha sido acusado de ter sorte. Ouvia falar das praias africanas, das ruas de Nova Iorque e da movida de Madrid, mas nunca tinha subido de Bragança e a mais longa das investidas ao Sul acabara em Tavira.
Era cego, o Zé. Não bebia, não fumava e branca só mesmo a casaca. Mas era viciado. Precisava de doses Dizzy Gillespie para ganhar energia, os dois anos de Lee Morgan ajudavam a sossegar e o Miles servia de sobremesa. No Chet Baker encontrava o conforto quando mais precisava. Chuva ou sol, se lhe garantissem a dose de banda sonora do dia, não precisava de mais nada. Consumia no sofá da sala e só o trocava pelo verdadeiro palco dos sonhos.
Imaginava-o longo, com três ou quatro centenas de metros, mas nunca o medira. O número exacto de passos mataria o sonho e não trocava a Liberdade por nada. Era ali que sonhava. O som do vento nas árvores, a vitória do chilrear dos pardais sobre o esvoaçar das asas dos pombos e as conversas de quem lhe caminhava com indiferença. Ali, com o trompete escondido na casaca que lhe diziam "quase branca", sonhava.
Ser cego estava longe de ser fácil, mas nem por isso o Zé se importava. Desabafa e celebrava com o trompete e viajava à conta de quem passava perto da sua Liberdade. Diziam-lhe que "o mais cego é o que não quer ver" e na volta até tinham razão.
"Um tirinho de Chet, se faz favor"
Enjoy
sexta-feira, 19 de agosto de 2011
O "cabeça de wax"
A regra era simples. Em dia de folga, o despertador tocava mais cedo.Vivia, trabalhava e geria toda a agenda a pensar na hora de molhar os pés. Sonhava com drops perfeitos, com picos perfeitos, com lips e com tubos. Muitos tubos. Mais ou menos redondos, mais ou menos agressivos, com ou sem direito junção a seguir, eram os tubos quem lhe fazia companhia nas horas de descanso.
Os amigos, não percebiam. Porquê acordar cedo? Água gelada? Correntes, mar castigador e portagens. Chamavam-lhe "cabeça de wax" e talvez tivessem razão. Gostava de ler, de um bom filme ou de uma simpática conversa entre amigos. É certo que devia ler mais, mas o hábito de adormecer a pensar em ondas limitava as opções de leitura.
E aquela fracção de segundo? Em que o balanço do corpo faz a diferença, em que o rail tem de ir bem cravado, mas sem abrandar. O momento em que, como um amigo lhe dissera, "se separavam os que voam dos que se ficam pela onda". E o "cabeça de wax" gostava de estar entre a elite. Perdia horas a recordar a última tentativa, a corrigir erros imaginários e a armazenar coragem para a hora H.
Diziam-lhe que não pensava em mais nada. Diziam que tinha de crescer. De gostar de ténis e de discutir a direita do Verdasco e os joelhos do Nadal. O "cabeça de wax", que até simpatizava com o sérvio que equipou à Benfica, preferia seguir o mundial de bodyboard. Torcia pelo Hubbard, dificilmente perdia um heat do Guilherme Tâmega e estudava todos os pormenores do Ryan Hardy. O "cabeça de wax" sonhava com o "bodyboarder perfeito". E nem ligava nenhuma às piadinhas de gays que a expressão motivava.
Se a alcunha o irritava? Nada. Provavelmente os amigos até teriam razão. O wax era mesmo o creme que mais usava e as ondas eram o seu vício. Mas no final, quem teria razão? O "cabeça de wax" ou os rapazes das discussões sobre punhos, pegas e cinema duvidoso?
Enjoy
Os amigos, não percebiam. Porquê acordar cedo? Água gelada? Correntes, mar castigador e portagens. Chamavam-lhe "cabeça de wax" e talvez tivessem razão. Gostava de ler, de um bom filme ou de uma simpática conversa entre amigos. É certo que devia ler mais, mas o hábito de adormecer a pensar em ondas limitava as opções de leitura.
E aquela fracção de segundo? Em que o balanço do corpo faz a diferença, em que o rail tem de ir bem cravado, mas sem abrandar. O momento em que, como um amigo lhe dissera, "se separavam os que voam dos que se ficam pela onda". E o "cabeça de wax" gostava de estar entre a elite. Perdia horas a recordar a última tentativa, a corrigir erros imaginários e a armazenar coragem para a hora H.
Diziam-lhe que não pensava em mais nada. Diziam que tinha de crescer. De gostar de ténis e de discutir a direita do Verdasco e os joelhos do Nadal. O "cabeça de wax", que até simpatizava com o sérvio que equipou à Benfica, preferia seguir o mundial de bodyboard. Torcia pelo Hubbard, dificilmente perdia um heat do Guilherme Tâmega e estudava todos os pormenores do Ryan Hardy. O "cabeça de wax" sonhava com o "bodyboarder perfeito". E nem ligava nenhuma às piadinhas de gays que a expressão motivava.
Se a alcunha o irritava? Nada. Provavelmente os amigos até teriam razão. O wax era mesmo o creme que mais usava e as ondas eram o seu vício. Mas no final, quem teria razão? O "cabeça de wax" ou os rapazes das discussões sobre punhos, pegas e cinema duvidoso?
Enjoy
quarta-feira, 20 de julho de 2011
O Haddock
Impressa numa folha A4, forrada a fita adesiva e pespegada num dos postes da Avenida de Berna, a fotografia não fazia justiça à história.
Haddock, um cinzento papagaio, tinha fugido deixando para trás a menina dos cândidos caracóis. Uma janela aberta, o apelo de alguma Caturra ou a simples curiosidade, tinham-no levado a abandonar o poleiro onde passara os últimos seis anos. Papagaio de bom gosto, os jardins da Gulbenkian seriam sempre uma das primeiras paragens. Seguir-se-iam, o da Estrela e do o Príncipe Real. Já chorava a menina dos cândidos caracóis.
Mas a fotografia não fazia justiça à história. Em casa, choravam os caracóis e nem a promessa de recompensa fazia o telefone tocar. Haddock, hoje pirata de má fama nas traseiras da Conde Valbom, tinha acompanhado as suas tardes em casa, os jantares de família e as noites de futebol. Tinha aprendido a imitar o sino do Saved by the Bell, desabafava "merda", gritava pelo Benfica e chamava pela menina dos "Caracóoois".
Mas o Haddock tinha desaparecido e à menina dos caracóis pouco restava além de oferecer recompensa. Faltava quem lhe abrisse os amendoins, quem a mandasse "dormir" e quem a chamasse ao som das chaves na porta - "Caracóoooois". Faltava a sua companhia na casa onde o Pai despejava más notícias à mesa de jantar, a Mãe comentava as últimas da nova melhor amiga de escritório e onde o vocabulário do Irmão pouco passava do "fixe". Era o Haddock, senhor do "bom dia" mais ensonado das traseiras da Conde Valbom, quem lhe mordiscava a orelha para acelerar os momentos mais enfastiantes.
Mas onde estava o Haddock? Ao som do Eros Ramazotti, um triste sobrevivente da paixão do Pai pela pior pop dos anos 90, e com o Irmão, como sempre de phones no carro, a menina dos caracóis seguiu por Lisboa. Ao volante, o Pai intervalava os impropérios ao estado das ruas, com mensagens de fraca expectativa - "Se calhar arranjou namorada ... ou mudou-se para um jardim maior." O Irmão? Abanava a cabeça ao ritmo da gritaria que lhe ia nos ouvidos e despejava piadas de humor duvidoso. "Olha ali ... era uma velha".
Mas se nunca a tinha convencido a deixar a primeira boneca, a trocar de mochila na escola ou a segui-lo para a firma de contabilidade, não era agora que o Pai a ia fazer mudar de ideias. O Haddock podia ser de má fama, mas não a ia deixar sozinha nos jantares de família ou na festa aos golos do Benfica.
Começou por pensar que "há merdas que só acontecem aos outros ... não ia perder o meu melhor amigo". Ao fim da primeira hora, lembrava a "resistência no bater de asas", mas depois de ter sido expulsa dos jardins da Gulbenkian, já não passava do "pode ser que esteja bem". No final, de regresso a casa e gastos dois marcadores de feltro a oferecer recompensa, não ia feliz a menina dos cândidos caracóis. Zangada, sem perceber para "onde terá ido o parvo", magoada, por ter sido trocada "por uma caturra oferecida", ou triste por ter perdido o "pirata mais fofo" da Conde Valbom, não encontrava forma de secar as lágrimas. Faltava-lhe qualquer coisa e nem encontrava quem culpar. Tinha sido derrotada.
A fotografia não fazia justiça ao drama. Mas o Mundo do Haddock nunca tinha sido casa para inocentes. Tinha acordado numa caixa escura, crescido atrás de grades numa sala de branco estridente e rapidamente
tinha sido acorrentado a um pau. Sozinho, numa varanda com vista para pequenos ecrãs de televisão, para meia dúzia de árvores e com direito a ver pombos, pardais e uma ou duas caturras a voar entre prédios. Foi a inveja que o fez agir. Queria viajar, queria conhecer outros poisos, queria ultrapassar o Irmão em número de palavras no vocabulário e tinha de conhecer as primas papagaias. Entre os abanões no bico, a ementa monótona e os brinquedos já picados, valiam-lhe os passeios, ao ombro, entre os cândidos caracóis. Não conhecia nada melhor que um bom jantar de família a herdar passas e pinhões que a menina dos caracóis dispensava do bacalhau ou que uma bela tarde a comer milho em frente à maior televisão que conhecia. Mas naquela tarde, a curiosidade tinha sido mais forte e afinal o trinco da corrente até se revelou de abertura fácil.
Não foi o fim da adrenalina da fuga, a falta de resistência nas asas ou o carro que quase o apanhava na primeira pausa para repouso. Também não foi a fraca percentagem de caturras em multidões de pombos, nem os ameaçadores olhares felinos. Não foi nada disso que fez Haddock voltar ao parapeito de onde nunca tinha saído.
É que o dia estava a amanhecer, era hora de gritar "vai-te lavar" para casa e para as traseiras da Conde Valbom e já sabia que sem o seu "bom dia" a menina dos caracóis não ficaria feliz. O Haddock percebeu que a melhor forma de ver o Mundo era ao abrigo dos cândidos caracóis. Sem eles, faz frio, é preciso bater muito as asas e os gatos ficam mais perto. Sem eles, os gritos pelo "Benfica" ficam sem resposta e não tinha encontrado outra orelha digna de mordiscar nos momentos de maior tensão.
Mesmo de má fama e longe de ser o mais esperto dos papagaios, o Haddock tinha descoberto que a felicidade estava nos caracóis e só faltava saber como ia convencer a menina a mostrar-lhe o Mundo. Para ajudar, e ultrapassar definitivamente o Irmão, aprendera uma palavra nova: "Juntos".
Enjoy
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