Era o Fora. Um daqueles tristes casos em que a alcunha de infância se pega aos ossos. O Manuel que nunca foi Manuel, o Pedro que nunca foi Pedro ou o Carlos que nunca passou de Fora.
Vivia convencido que as pessoas eram mais que os seus corpos. Karma? Alma? Espírito? Ainda não tinha decidido o que lhe chamar. Faltava-lhe a palavra, mas vivia convencido que o Manuel, o Pedro ou o Carlos tinham algo ... fora. E se os ossos já começavam a mostrar os quilómetros, lá fora, as marcavas também se faziam notar. O Fora, vivia convencido que infâncias felizes, adolescências traumáticas, casamentos ou mesmo fins de tarde perfeitos, tinham o seu cunho.
Estranho o Fora. Gostava do seu copo com amigos, da sua manhã de praia e conhecia todos os segredos da sobrevivência feliz em jantaradas. E sempre, sempre, convicto que importante era a parte de fora. A melhor definição que conhecia? Coração. Elogios à beleza, à sagacidade, ao sentido de humor ou a um qualquer talento atlético, tornavam-se triviais quando era o Coração a ser gabado. Quem não gosta de ouvir: "Tens um bom coração."
Homem de bom coração, o Fora. Aluado, como alguns lhe chamavam, distraído ou mesmo preguiçoso. O Fora não era conhecido por ser rápido, mas já tinha ouvido mais que um elogio ao Coração. Tinha as suas marcas e as suas vitórias e aparentemente o resultado não tinha, para os que notavam, sido mau. Algo mais importante que um bom coração? O Fora achava que não.
Enjoy
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
segunda-feira, 21 de novembro de 2011
Abre os olhos
Giro o mundo dos downloads. É divertido chegar a casa com as últimas novidades. Estar selectivamente contactável a qualquer hora pode tornar-se viciante. Tudo mais rápido, tudo mais variado, mas tudo bem mais perecível. Tudo desaparece rápido no mundo dos downloads, é a vida 2.0 onde se perdeu o tempo para saborear os Momentos.
Não há como o negar. Seja um prego numa pastelaria para os lados de Algés, um passeio pela Fundação Champalimaud ou uma visita a um cantinho especial em Lisboa, é bem longe do mundo 2.0 que os momentos se agarram. Nem tem de ser um miradouro na Graça ou o Jardim da Estrela, pode ser uma tosta numa esplanada povoada por irritantes mosquitos ou à beira de uma estrada na Costa da Caparica. A experiência diz-me que é a companhia que faz o momento. No mundo dos downloads os discos não se compram olhos nos olhos. No mundo a 2.0 a banda é sacada, no meu a escolha dos discos diz tudo.
Será roqueira? Fã de Chico? Se gostar de Jazz é de pedir o número de telefone. E se for mulher de ainda dar um pulo à música sinfónica, o melhor é casar logo na bilheteira da FNAC. Pararam para ouvir o mesmo disco? Fnac, Chiado, sete da tarde num mundo pré-falência, haverá momento mais caótico na vida de um alfacinha? Mas e se um dia, decidirem parar? Mesmo que até já tenham o disco no mp3 ou que o saldo recomende tudo menos uma edição em Vinil do Abbey Road?
Há quem deixe escapar os momentos. É preciso andar de olhos bem abertos e é sempre mais fácil ignorar que correr atrás. Sem risco e com a garantia da repetição, é tentador seguir a rota tradicional, mas desfazem-se as hipóteses de começar a noite a lanchar no Kafeehaus. De iPod desligado e numa loja de discos? Abre os olhos..
A selecção até se quer inconsciente, mas a banda sonora é biográfica e se for boa, a história de quem namora as capas também o será.
Não conheço reaccionárias que gostem do Zeca Afonso, nem saloias que soletrem todas as letras do Chico. É garantido que nenhuma urbana gosta de reagge e que não há stressadinha com paciência para os Radiohead. Conhecem alguma preconceituosa que goste de Hip Hop? Ciência não é - poucas coisas o são - mas a escolha da banda sonora é feita de marcas. Tanto serve de aviso como de isco.
Seja por ter companhia, um disco dos Europe lá pelo meio ou por estar demasiada gente à volta, quem nunca desperdiçou um momento? Quem não esqueceu a maioria deles? Os que ficam, tenham sido em esplanadas ou a na Praia Grande a comer Perceves, deixam marca. E essa fica gravada na banda sonora. Um fim de tarde na Fnac será sempre melhor que um passeio pelas melhores sugestões do iTunes e garantidamente que não há aplicação capaz de substituir a honestidade de um olhar. Esses deixam adivinhar a banda sonora. Esses merecem todas as corridas. Esses fazem os grande momentos.
Enjoy
sexta-feira, 18 de novembro de 2011
sábado, 15 de outubro de 2011
15 de Outubro
Vinha exausto. Profissionalmente, sobrevivera à semana mais agitada do ano e, entre o culminar de uma aventura e uma hecatombe, nem sequer tinha tido tempo para pensar. Mesmo respirar tinha sido coisa rara, na semana em que também o coração partiu.
Ouvia gritos, via-os indignados. Alguns divertidos, outros nem tanto. Alguns carregados de cartazes, outros mais entretidos com malabarismos. Cerveja, tambores, bolinhas de circo ou simplesmente penteados. Não faltou entretenimento ao 15 de Outubro.
Crise e sol, ambos demasiado duros para esta época. Gente no limite, gente sem oportunidades, gente sem mais paciência. Entre os milhares na rua - fossem os dez mil da polícia ou os cem mil da organização - só existia um ponto em comum. A paciência tinha esgotado. Não havia como disfarçar. Fosse porque os iMacs estão cada vez mais caros, pelo choque de saber que em 2011 ainda se morre à fome ou pela afronta que quem manda volta a fazer, entre os Indignados não havia quem não estivesse a pensar "Basta".
Encontraram-se velhos amigos, trocaram-se sorrisos, abraços e histórias de guerras: antes do 25 de Abril é que era ... ; e o gajo que mostrou o cú à Manuela Ferreira Leite?; a da Ponte é que foi ... ; e os Secos e Molhados? Entre as memórias, um denominador quase comum: o nosso Presidente da República. Fosse por ter nomeado a Manuela para ministra da Educação, fosse por ter inventado a PGA, por ter dado a ordem da carga na ponte ou por ter equipado os polícias de serviço com mangueiras, o velho Aníbal está em todas. Em quase todas. Antes do 25 de Abril era só "alinhado", não participava.
"Sejam realistas, peçam o impossível". "Vão à bardaMerkel". "Catastroika". "Tira-me o Natal, dou-te greve geral". "Vão privatizar a puta que vos pariu". "Quem deve dinheiro é banqueiro". Eram mesmo "muitos e não tinham medo". Um mimo para o Aníbal: "Cavaco, a brincar aos sérios desde 1985".
Um coração partido pesa mais. O corpo fica menos disponível. A face menos elástica. E as conversas deixam de fluir. Tudo fica mais vagaroso. O Indignado, optou pelo papel de observador. Afinal a luta até era internacional, estavam cidades ocupadas em mais de sessenta países e nas ruas a quantidade de polícia não enganava. A principal batalha até já estava ganha.
No reino dos iPad, iPod, iPhone das sociabilidades cibernéticas e dos indies, ainda há quem saia para a rua com uma atitude punk rock. Sem partidos, sem planos retorcidos, mas com a ingenuidade de achar que ainda se muda o Mundo. Saíram indignados, saíram pelo 15 de Outubro como tinham saído a 12 de Março e o Indignado voltava a acompanhar. O Indignado perguntava: será que serão capazes?
De coração partido mas olhos bem abertos, viu agressões, murros e gritaria. Contra o marchar do Corpo de Intervenção ajudou a segurar os últimos ocupantes da escadaria e teve de se conter para não soltar um ou dois impropérios. Mas da mesma forma que se surpreendeu pela elevada percentagem de polícias civilizados e competentes, não deixou de pensar que os outros, os que se sentem enormes na protecção de uma armadura e com um bastão nas mãos, nem os gritos mereciam.
Voltou melhor para casa. Esgotado, de coração partido, mas com uma confiança redobrada. Se ainda há quem se acredite capaz de mudar o Mundo, quem por isso arrisque a integridade física e quem corra sem segundas intenções. Se ainda sobrevivem os loucos capazes de gritar frases quem gritam "os democratas são os novos fascistas" ou de protestar com frases clássicas do cinema escritas a marcador preto em cartão - "Everybody be cool this is a robbery" - porque raio não conseguiria ele, um simples indignado, resolver problemas bem mais simples. Da mesma forma que os Indignados conquistaram a escadaria e ficaram a sonhar com a invasão aos corredores de São Bento, também ele seria capaz de continuar a caminhar.
Na noite em que a sua geracção descobriu que as barreiras policiais são quebráveis, exausto e de coração partido, pensou no que perderia, mas também nas cenas tristes a que se pouparia, pensou no sorriso e no olhar que nunca mais veria, mas chegava a casa convencido que merecia mais, que a vida, ou mesmo o Mundo, podia ser melhor. Tinha visto como às vezes um sprint em direcção ao Corpo de Intervenção pode ser bem sucedido, mas também que há alturas em que o melhor é ceder e abandonar a Escadaria. A luta, pela vida e por um Mundo mais limpo, continua pela estrada fora. A frase estava num dos cartazes: "Sejam realistas, exijam o impossível".
Enjoy
segunda-feira, 5 de setembro de 2011
Zé, o trompetista cego
Vivia entre a Praça da Alegria e o Parque Mayer. Sonhava nos bancos da Avenida da Liberdade.
Tinha crescido entre guitarristas de fados, putas e uma bebida que lhe parecia vinho verde. Actrizes e coristas também nunca tinham faltado. Sportinguista, ao Domingo raramente perdia a bola e se o jogo fosse à hora de outros palcos, penitenciava-se com todos os resumos. Sem saber para que servia o facebook de que os amigos tanto falavam, lembrava-se da última visita do Cherbakov e tinha saudades do velhinho Hot Clube. Diziam-lhe que era o típico tuga, e que não fosse a peculiar escolha de instrumento, poderia dar um belo fadista.
O Zé tocava trompete. Sim, o Carlos Paredes era o mais parecido que conhecia de Deus. E sim, nunca tinha ouvido um verdadeiro fado sem alma. Mas nada chegava ao som do trompete. De tristeza, dor ou alegria, quando chegava a hora de ouvir uma alma cantar, era o trompete quem oferecia a melhor voz. Miles e Chet, por sinal o nome dos dois gatos com quem partilhava o húmido T2, tinham tornado a escolha evidente e quando descobriu que até dava para pagar a renda não pensou duas vezes. A vida seria vivida ao som de bronze.
Sabia como facturar. Um bom espectáculo no Parque Mayer aguentava uns meses, com sorte aparecia uma banda de putos à procura de um quarteto e até ia sendo chamado para acompanhar em estúdio. Pagava a renda, poupava na roupa e nem era esquisito na hora de escolher o lugar no estádio. A volta para comprar comida, o "dia seguinte" no café e os noticiários mantinham o ritmo de dias que teimavam em terminar com o trompete a chorar.
Ia sabendo das novidades. Sabia que o mundo tinha falido, que o Porto se tinha safo no mercado de verão e que pior que a banca e o Sporting só mesmo uma coisa: Portugal. Trompetista remediado, mas nunca parvo, o Zé até tinha a sua conta, uma espécie de colchão, ao pé do Campo Pequeno, a proteger umas poucas centenas de euros e meia dúzia de certificados de aforro, dos que mais tinham desvalorizado. Que o Zé também nunca tinha sido acusado de ter sorte. Ouvia falar das praias africanas, das ruas de Nova Iorque e da movida de Madrid, mas nunca tinha subido de Bragança e a mais longa das investidas ao Sul acabara em Tavira.
Era cego, o Zé. Não bebia, não fumava e branca só mesmo a casaca. Mas era viciado. Precisava de doses Dizzy Gillespie para ganhar energia, os dois anos de Lee Morgan ajudavam a sossegar e o Miles servia de sobremesa. No Chet Baker encontrava o conforto quando mais precisava. Chuva ou sol, se lhe garantissem a dose de banda sonora do dia, não precisava de mais nada. Consumia no sofá da sala e só o trocava pelo verdadeiro palco dos sonhos.
Imaginava-o longo, com três ou quatro centenas de metros, mas nunca o medira. O número exacto de passos mataria o sonho e não trocava a Liberdade por nada. Era ali que sonhava. O som do vento nas árvores, a vitória do chilrear dos pardais sobre o esvoaçar das asas dos pombos e as conversas de quem lhe caminhava com indiferença. Ali, com o trompete escondido na casaca que lhe diziam "quase branca", sonhava.
Ser cego estava longe de ser fácil, mas nem por isso o Zé se importava. Desabafa e celebrava com o trompete e viajava à conta de quem passava perto da sua Liberdade. Diziam-lhe que "o mais cego é o que não quer ver" e na volta até tinham razão.
"Um tirinho de Chet, se faz favor"
Enjoy
Tinha crescido entre guitarristas de fados, putas e uma bebida que lhe parecia vinho verde. Actrizes e coristas também nunca tinham faltado. Sportinguista, ao Domingo raramente perdia a bola e se o jogo fosse à hora de outros palcos, penitenciava-se com todos os resumos. Sem saber para que servia o facebook de que os amigos tanto falavam, lembrava-se da última visita do Cherbakov e tinha saudades do velhinho Hot Clube. Diziam-lhe que era o típico tuga, e que não fosse a peculiar escolha de instrumento, poderia dar um belo fadista.
O Zé tocava trompete. Sim, o Carlos Paredes era o mais parecido que conhecia de Deus. E sim, nunca tinha ouvido um verdadeiro fado sem alma. Mas nada chegava ao som do trompete. De tristeza, dor ou alegria, quando chegava a hora de ouvir uma alma cantar, era o trompete quem oferecia a melhor voz. Miles e Chet, por sinal o nome dos dois gatos com quem partilhava o húmido T2, tinham tornado a escolha evidente e quando descobriu que até dava para pagar a renda não pensou duas vezes. A vida seria vivida ao som de bronze.
Sabia como facturar. Um bom espectáculo no Parque Mayer aguentava uns meses, com sorte aparecia uma banda de putos à procura de um quarteto e até ia sendo chamado para acompanhar em estúdio. Pagava a renda, poupava na roupa e nem era esquisito na hora de escolher o lugar no estádio. A volta para comprar comida, o "dia seguinte" no café e os noticiários mantinham o ritmo de dias que teimavam em terminar com o trompete a chorar.
Ia sabendo das novidades. Sabia que o mundo tinha falido, que o Porto se tinha safo no mercado de verão e que pior que a banca e o Sporting só mesmo uma coisa: Portugal. Trompetista remediado, mas nunca parvo, o Zé até tinha a sua conta, uma espécie de colchão, ao pé do Campo Pequeno, a proteger umas poucas centenas de euros e meia dúzia de certificados de aforro, dos que mais tinham desvalorizado. Que o Zé também nunca tinha sido acusado de ter sorte. Ouvia falar das praias africanas, das ruas de Nova Iorque e da movida de Madrid, mas nunca tinha subido de Bragança e a mais longa das investidas ao Sul acabara em Tavira.
Era cego, o Zé. Não bebia, não fumava e branca só mesmo a casaca. Mas era viciado. Precisava de doses Dizzy Gillespie para ganhar energia, os dois anos de Lee Morgan ajudavam a sossegar e o Miles servia de sobremesa. No Chet Baker encontrava o conforto quando mais precisava. Chuva ou sol, se lhe garantissem a dose de banda sonora do dia, não precisava de mais nada. Consumia no sofá da sala e só o trocava pelo verdadeiro palco dos sonhos.
Imaginava-o longo, com três ou quatro centenas de metros, mas nunca o medira. O número exacto de passos mataria o sonho e não trocava a Liberdade por nada. Era ali que sonhava. O som do vento nas árvores, a vitória do chilrear dos pardais sobre o esvoaçar das asas dos pombos e as conversas de quem lhe caminhava com indiferença. Ali, com o trompete escondido na casaca que lhe diziam "quase branca", sonhava.
Ser cego estava longe de ser fácil, mas nem por isso o Zé se importava. Desabafa e celebrava com o trompete e viajava à conta de quem passava perto da sua Liberdade. Diziam-lhe que "o mais cego é o que não quer ver" e na volta até tinham razão.
"Um tirinho de Chet, se faz favor"
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sexta-feira, 19 de agosto de 2011
O "cabeça de wax"
A regra era simples. Em dia de folga, o despertador tocava mais cedo.Vivia, trabalhava e geria toda a agenda a pensar na hora de molhar os pés. Sonhava com drops perfeitos, com picos perfeitos, com lips e com tubos. Muitos tubos. Mais ou menos redondos, mais ou menos agressivos, com ou sem direito junção a seguir, eram os tubos quem lhe fazia companhia nas horas de descanso.
Os amigos, não percebiam. Porquê acordar cedo? Água gelada? Correntes, mar castigador e portagens. Chamavam-lhe "cabeça de wax" e talvez tivessem razão. Gostava de ler, de um bom filme ou de uma simpática conversa entre amigos. É certo que devia ler mais, mas o hábito de adormecer a pensar em ondas limitava as opções de leitura.
E aquela fracção de segundo? Em que o balanço do corpo faz a diferença, em que o rail tem de ir bem cravado, mas sem abrandar. O momento em que, como um amigo lhe dissera, "se separavam os que voam dos que se ficam pela onda". E o "cabeça de wax" gostava de estar entre a elite. Perdia horas a recordar a última tentativa, a corrigir erros imaginários e a armazenar coragem para a hora H.
Diziam-lhe que não pensava em mais nada. Diziam que tinha de crescer. De gostar de ténis e de discutir a direita do Verdasco e os joelhos do Nadal. O "cabeça de wax", que até simpatizava com o sérvio que equipou à Benfica, preferia seguir o mundial de bodyboard. Torcia pelo Hubbard, dificilmente perdia um heat do Guilherme Tâmega e estudava todos os pormenores do Ryan Hardy. O "cabeça de wax" sonhava com o "bodyboarder perfeito". E nem ligava nenhuma às piadinhas de gays que a expressão motivava.
Se a alcunha o irritava? Nada. Provavelmente os amigos até teriam razão. O wax era mesmo o creme que mais usava e as ondas eram o seu vício. Mas no final, quem teria razão? O "cabeça de wax" ou os rapazes das discussões sobre punhos, pegas e cinema duvidoso?
Enjoy
Os amigos, não percebiam. Porquê acordar cedo? Água gelada? Correntes, mar castigador e portagens. Chamavam-lhe "cabeça de wax" e talvez tivessem razão. Gostava de ler, de um bom filme ou de uma simpática conversa entre amigos. É certo que devia ler mais, mas o hábito de adormecer a pensar em ondas limitava as opções de leitura.
E aquela fracção de segundo? Em que o balanço do corpo faz a diferença, em que o rail tem de ir bem cravado, mas sem abrandar. O momento em que, como um amigo lhe dissera, "se separavam os que voam dos que se ficam pela onda". E o "cabeça de wax" gostava de estar entre a elite. Perdia horas a recordar a última tentativa, a corrigir erros imaginários e a armazenar coragem para a hora H.
Diziam-lhe que não pensava em mais nada. Diziam que tinha de crescer. De gostar de ténis e de discutir a direita do Verdasco e os joelhos do Nadal. O "cabeça de wax", que até simpatizava com o sérvio que equipou à Benfica, preferia seguir o mundial de bodyboard. Torcia pelo Hubbard, dificilmente perdia um heat do Guilherme Tâmega e estudava todos os pormenores do Ryan Hardy. O "cabeça de wax" sonhava com o "bodyboarder perfeito". E nem ligava nenhuma às piadinhas de gays que a expressão motivava.
Se a alcunha o irritava? Nada. Provavelmente os amigos até teriam razão. O wax era mesmo o creme que mais usava e as ondas eram o seu vício. Mas no final, quem teria razão? O "cabeça de wax" ou os rapazes das discussões sobre punhos, pegas e cinema duvidoso?
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quarta-feira, 20 de julho de 2011
O Haddock
Impressa numa folha A4, forrada a fita adesiva e pespegada num dos postes da Avenida de Berna, a fotografia não fazia justiça à história.
Haddock, um cinzento papagaio, tinha fugido deixando para trás a menina dos cândidos caracóis. Uma janela aberta, o apelo de alguma Caturra ou a simples curiosidade, tinham-no levado a abandonar o poleiro onde passara os últimos seis anos. Papagaio de bom gosto, os jardins da Gulbenkian seriam sempre uma das primeiras paragens. Seguir-se-iam, o da Estrela e do o Príncipe Real. Já chorava a menina dos cândidos caracóis.
Mas a fotografia não fazia justiça à história. Em casa, choravam os caracóis e nem a promessa de recompensa fazia o telefone tocar. Haddock, hoje pirata de má fama nas traseiras da Conde Valbom, tinha acompanhado as suas tardes em casa, os jantares de família e as noites de futebol. Tinha aprendido a imitar o sino do Saved by the Bell, desabafava "merda", gritava pelo Benfica e chamava pela menina dos "Caracóoois".
Mas o Haddock tinha desaparecido e à menina dos caracóis pouco restava além de oferecer recompensa. Faltava quem lhe abrisse os amendoins, quem a mandasse "dormir" e quem a chamasse ao som das chaves na porta - "Caracóoooois". Faltava a sua companhia na casa onde o Pai despejava más notícias à mesa de jantar, a Mãe comentava as últimas da nova melhor amiga de escritório e onde o vocabulário do Irmão pouco passava do "fixe". Era o Haddock, senhor do "bom dia" mais ensonado das traseiras da Conde Valbom, quem lhe mordiscava a orelha para acelerar os momentos mais enfastiantes.
Mas onde estava o Haddock? Ao som do Eros Ramazotti, um triste sobrevivente da paixão do Pai pela pior pop dos anos 90, e com o Irmão, como sempre de phones no carro, a menina dos caracóis seguiu por Lisboa. Ao volante, o Pai intervalava os impropérios ao estado das ruas, com mensagens de fraca expectativa - "Se calhar arranjou namorada ... ou mudou-se para um jardim maior." O Irmão? Abanava a cabeça ao ritmo da gritaria que lhe ia nos ouvidos e despejava piadas de humor duvidoso. "Olha ali ... era uma velha".
Mas se nunca a tinha convencido a deixar a primeira boneca, a trocar de mochila na escola ou a segui-lo para a firma de contabilidade, não era agora que o Pai a ia fazer mudar de ideias. O Haddock podia ser de má fama, mas não a ia deixar sozinha nos jantares de família ou na festa aos golos do Benfica.
Começou por pensar que "há merdas que só acontecem aos outros ... não ia perder o meu melhor amigo". Ao fim da primeira hora, lembrava a "resistência no bater de asas", mas depois de ter sido expulsa dos jardins da Gulbenkian, já não passava do "pode ser que esteja bem". No final, de regresso a casa e gastos dois marcadores de feltro a oferecer recompensa, não ia feliz a menina dos cândidos caracóis. Zangada, sem perceber para "onde terá ido o parvo", magoada, por ter sido trocada "por uma caturra oferecida", ou triste por ter perdido o "pirata mais fofo" da Conde Valbom, não encontrava forma de secar as lágrimas. Faltava-lhe qualquer coisa e nem encontrava quem culpar. Tinha sido derrotada.
A fotografia não fazia justiça ao drama. Mas o Mundo do Haddock nunca tinha sido casa para inocentes. Tinha acordado numa caixa escura, crescido atrás de grades numa sala de branco estridente e rapidamente
tinha sido acorrentado a um pau. Sozinho, numa varanda com vista para pequenos ecrãs de televisão, para meia dúzia de árvores e com direito a ver pombos, pardais e uma ou duas caturras a voar entre prédios. Foi a inveja que o fez agir. Queria viajar, queria conhecer outros poisos, queria ultrapassar o Irmão em número de palavras no vocabulário e tinha de conhecer as primas papagaias. Entre os abanões no bico, a ementa monótona e os brinquedos já picados, valiam-lhe os passeios, ao ombro, entre os cândidos caracóis. Não conhecia nada melhor que um bom jantar de família a herdar passas e pinhões que a menina dos caracóis dispensava do bacalhau ou que uma bela tarde a comer milho em frente à maior televisão que conhecia. Mas naquela tarde, a curiosidade tinha sido mais forte e afinal o trinco da corrente até se revelou de abertura fácil.
Não foi o fim da adrenalina da fuga, a falta de resistência nas asas ou o carro que quase o apanhava na primeira pausa para repouso. Também não foi a fraca percentagem de caturras em multidões de pombos, nem os ameaçadores olhares felinos. Não foi nada disso que fez Haddock voltar ao parapeito de onde nunca tinha saído.
É que o dia estava a amanhecer, era hora de gritar "vai-te lavar" para casa e para as traseiras da Conde Valbom e já sabia que sem o seu "bom dia" a menina dos caracóis não ficaria feliz. O Haddock percebeu que a melhor forma de ver o Mundo era ao abrigo dos cândidos caracóis. Sem eles, faz frio, é preciso bater muito as asas e os gatos ficam mais perto. Sem eles, os gritos pelo "Benfica" ficam sem resposta e não tinha encontrado outra orelha digna de mordiscar nos momentos de maior tensão.
Mesmo de má fama e longe de ser o mais esperto dos papagaios, o Haddock tinha descoberto que a felicidade estava nos caracóis e só faltava saber como ia convencer a menina a mostrar-lhe o Mundo. Para ajudar, e ultrapassar definitivamente o Irmão, aprendera uma palavra nova: "Juntos".
Enjoy
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